Igor Mendes da Silva
Bacharel em Biblioteconomia - Universidade Estadual Paulista
Sierra Leone
Marília, São Paulo, Brasil
10/11/2024
Durante meus anos de graduação em biblioteconomia me dediquei por determinado período a estudos vinculados ao universo de pessoas com deficiência auditiva no Brasil, assim como a forma de comunicação oficial garantida a eles por essa República, a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Na época as principais documentações utilizadas foram o Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelou a presença de mais de 2,3 milhões de pessoas com deficiência auditiva no país (possuem grande dificuldade de ouvir ou não ouvem nada); e a Pesquisa nacional de saúde 2019: ciclos de vida, também do Instituto, apontando que apenas 22,4% das pessoas com deficiência auditiva do país conhecem a libras; ao delimitar mais o grupo, levando em consideração apenas as pessoas com deficiência auditiva total, o número se eleva para 61,3%. Embora os levantamentos não sejam capazes de apontar com exímia precisão (imagino que nenhum seja) a quantidade de pessoas surdas e a utilização da libras por essas pessoas, foi o suficiente para despertar minha curiosidade pela temática, mas não apenas em território nacional.
Apesar da inexistência de levantamentos oficiais sobre o número de pessoas com deficiência que utilizam a Nihon Shuwa (日本手話), a Língua Japonesa de Sinais conhecida internacionalmente como Japanese Sign Language (JSL), estudos apontam que esse número pode variar entre 35.000 a 57.000, o que corresponderia em torno de 10 a 17% da população com deficiência auditiva no Japão (Yano; Matsuoka, 2018). Em contrapartida é possível identificar por meio de dados presentes em páginas na web, especializadas em cultura japonesa, ou ensino da língua japonesa de sinais, sem acurácia científica, uma variação de 60 a 95% de pessoas com deficiência auditiva instruídas em Nihon Shuwa (Deaf Japan, 2018; Kawanami, 2016).
O longa animado Koe no Katachi, mais conhecido no Brasil como A Silent Voice (título em inglês), ou A Voz do Silêncio, foi publicado no segundo semestre de 2016. Um dos pontos principais dessa história é Shoko Nishimiya, uma garota com deficiência auditiva que se comunica por meio da Língua de Sinais Japonesa. E a representação da descomunicação, exclusão social, bullying e suicídio (Koe no Katachi, 2016; Kabushiki-gaisha Kyōto Animēshon, 2016; Ōima; Kodansha, [2016]).
Ressalta-se que o texto, não se propõe em determinar que a existência da obra amplificou o ensino e busca pela língua, para isso seria necessário levantamentos detalhados sobre a população utente da Nihon Shuwa, pré e pós lançamento da animação (os quais não possuo), e mesmo assim não seria possível afirmar com exatidão a relação, e sim apenas tecer inferências dessa possível fomentação. Por isso o estudo se propôs a discorrer sobre ações envolvendo o longa metragem que objetivaram desenvolver ações inclusivas para com a população deficiente auditiva japonesa.
Uma dessas ações foi realizada pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, que durante o período de lançamento do filme, ao lado de uma organização responsável pela distribuição da obra, a Shochiku Co., Ltd, produziram e distribuíram cartazes em escolas de todo o país com o intuito de construir uma sociedade inclusiva, promover a comunicação e compreensão de pessoas com deficiência, prevenir bullying e o suicídio no país (Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, 2016b). Além disso, o Ministério também elaborou a criação de um sítio digital direcionado a campanha, podendo ser acessado ainda hoje (Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, 2016a).
Imagem 1 - Pôster da campanha realizada pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão.
Fonte: Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão (2016a).
Outra ação, essa realizada durante o mês de setembro de 2016 pela prefeitura de Kanagawa, por meio do Departamento de Saúde e Bem-Estar, buscou promover a difusão da Língua de Sinais Japonesa (Prefeitura de Kanagawa, 2016a). O evento contou com a exibição antecipada do filme, além de aulas de Nihon Shuwa para a população presente durante o período de acontecimento do evento.
Imagem 2 - Comunicado sobre o evento de difusão da Língua Japonesa de Sinais realizado pela prefeitura de Kanagawa.
Fonte: Prefeitura de Kanagawa (2016b).
Observando algumas ações tomadas em busca da difusão do Nihon Shuwa, e de conscientização para medidas inclusivas de pessoas com deficiência auditiva na sociedade japonesa, é impossível a não associação com a conjuntura do país onde habito. No Brasil com base na observação cotidiana e alguns estudos anteriores, pude notar a ausência esmagadora de ações inclusivas relativas às pessoas com deficiência auditiva, e teço críticas a minha própria área de atuação, apenas 21,7% dos cursos de biblioteconomia, responsáveis legalmente por formar o profissional bibliotecário, tratam o ensino da Libras como obrigatório (Silva, 2024). E arrisco dizer que embora inexpressivo, em comparação a outras áreas, é um número alto.
Para finalizar destaco que embora o título deste texto sugira que a arte possui um papel no combate à exclusão social, denota-se que a arte em si, embora possua potência de conscientização, não é capaz de mudar efetivamente o contexto em que vivemos, pelo menos não sozinha. É necessário a existência de ações sendo aplicadas constantemente, principalmente no que diz respeito ao Estado, e aqui me refiro ao Estado como um todo, incluindo suas instituições, representantes e representados.
BRASIL. Lei nº 9.674, de 25 de junho de 1998. Dispõe sobre o exercício da profissão de Bibliotecário e determina outras providências. Brasília: Presidência da República, 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9674.htm. Acesso em: 27 de janeiro de 2024.
DEAF JAPAN. The History of Japanese Sign Language - Shuwa no rekishi (手話の歴史). Deaf Japan, Toronto, Canadá, 2018. Disponível em: https://deafjapan.com/japanese-sign-language-blog/the-history-of-japanese-sign-languag. Acesso em: 10 de janeiro de 2024.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo?id=794&view=detalhes. Acesso em: 27 de janeiro de 2024.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa nacional de saúde 2019: ciclos de vida. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: https://https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?id=2101846&view=detalhes. Acesso em: 03 de janeiro de 2023.
KABUSHIKI-GAISHA KYŌTO ANIMĒSHON (株式会社京都アニメーション). Eiga Koe no katachi (映画 聲の形). Kabushiki-gaisha Kyōto Animēshon (株式会社京都アニメーション), Quioto, Japão, 2016. Disponível em: https://www.kyotoanimation.co.jp/works/koeM/. Acesso em: 11 de janeiro de 2024.
KAWANAMI, Silvia. Nihon Shuwa: a língua de sinais no Japão. Japão em Foco, Brasil, 2016. Disponível em: https://www.japaoemfoco.com/nihon-shuwa-a-lingua-de-sinais-no-japao . Acesso em: 03 de janeiro de 2023.
KOE NO KATACHI (聲の形). Diretora: YAMADA, Naoko. Quioto, Japão, 2016: Kabushiki-gaisha Kyōto Animēshon, 2016. (130 min).
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, CULTURA, ESPORTES, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO JAPÃO. Eiga “Koe no Katachi”: Monbu Kagaku Shō (映画『聲の形』:文部科学省). Monbu kagakushō (文部科学省), Tóquio, Japão, 2016a. Disponível em: https://www.mext.go.jp/koenokatachi/. Acesso em: 11 de janeiro de 2024.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, CULTURA, ESPORTES, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO JAPÃO. Eiga “Koe no Katachi" to taiappu! yūki o motte kokoro no koe o tsutaeyō (映画『聲(こえ)の形』とタイアップ!~ 勇気をもって 心の声を伝えよう ~). Monbu kagakushō (文部科学省), Tóquio, Japão, 2016b. Disponível em: https://web.archive.org/web/20161107223901/http://www.mext.go.jp/b_menu/houdou/28/09/1376799.htm. Acesso em: 09 de janeiro de 2024.
ŌIMA, Yoshitoki; KODANSHA. Eiga Koe no katachi: Kōshiki saito (映画『聲の形』公式サイト). Eiga Koe no katachi: Kōshiki saito (映画『聲の形』公式サイト), Tóquio, Japão, [2016]. Disponível em: https://koenokatachi-movie.com/. Acesso em: 11 de janeiro de 2024.
PREFEITURA DE KANAGAWA. Shuwa fukyū suishin ibento o kaisai shimasu! eiga "koe no katachi" to no koraborēshon (手話普及推進イベントを開催します!~映画「聲こえの形」とのコラボレーション~). Kanagawa, Japão: Prefeitura de Kanagawa, 2016a. Disponível em: https://www.latina.mnemosin-e.com/dados-de-pesquisa/DP-2 (KOE-5). Acesso em: 01 de fevereiro de 2024.
PREFEITURA DE KANAGAWA. Koe no katachi (聲の形). Kanagawa, Japão: Prefeitura de Kanagawa, 2016b. Disponível em: https://www.latina.mnemosin-e.com/dados-de-pesquisa/DP-2 (KOE-4). Acesso em: 01 de fevereiro de 2024.
SILVA, Igor Mendes da. A opcionalidade do atendimento ao usuário surdo. Sierra Leone. Marília, 2024. Disponível em: https://sierraleone.mnemosin-e.com/1. Acesso em: 08 de outubro de 2024.
YANO, Uiko; MATSUOKA, Kazumi. Numerals and Timelines of a Shared Sign Language in Japan: Miyakubo Sign Language on Ehime-Oshima Island. Sign Language Studies, Gallaudet University Press, Washington, Estados Unidos, v. 18, n. 4, p. 640-665, 2018. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/26637451. Acesso em: 27 de janeiro de 2024.
Texto republicado em formato acessível.
INFOhome - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade. 07/03/2024.